EU QUERO - E PRONTO!

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Começo citando o filósofo Luiz Felipe Pondé:

A ética do desejo, que recusa abrir mão do próprio desejo em nome de algo maior do que ele, destruiu a noção de caráter. Para a moçada do marketing do desejo, resistir ao desejo é coisa de gente idiota e mal resolvida porque ter caráter não deixa você muito feliz o tempo todo”.

O escritor irlandês Oscar Wilde chegou a declarar: “Posso resistir a tudo, menos às tentações”.

Vivemos numa época em que os desejos definem valores, princípios, decisões, escolhas, atitudes, posturas e ações. A única reflexão exigida para que o próximo passo seja dado, ou seja feito o gesto seguinte, é a da consulta às emoções. “Siga o coração”, costumam recomendar, com teimosa repetição, os inconsequentes conselheiros de plantão.

E os tantos (e tontos) desavisados que, por sua vez, resolvem cumprir os caprichos das fantasias e ilusões do coração, como se fossem uma receita infalível de felicidade, logo irão descobrir o tamanho do abismo que fizeram questão de cavar com os próprios pés — abismo pelo qual serão inevitavelmente tragados.

A Palavra de Deus adverte de modo inequívoco: “o coração é mais enganoso que qualquer outra coisa” (Jeremias 17.9).

E, além disso, avisa: “Não se deixem enganar; de Deus não se zomba. Pois o que o homem semear, isso também colherá” (Gálatas 6.7).

Simples assim.

O coração é enganador. E a grande e imediata vítima das enganações do coração é o próprio ser humano. Em outras palavras, pagam o corpo, a mente e a alma — e, não raro, aqueles com quem se convive — o alto preço cobrado pelas precipitações do coração.

Inúmeros testemunhos, e grande parte deles doloridíssimos, corroboram as afirmações bíblicas acerca da insensatez dos desejos ilícitos e ilegítimos.

Há muita gente achando que basta querer. Gente semelhante a criancinhas mimadas, a filhos egocêntricos cheios de vontades irreprimíveis, sempre dispostos a birras malcriadas a fim de conseguir seus intentos.

Há muita gente dizendo “eu quero, e pronto!”, como se fosse suficiente o desejo em si, sem a avaliação cuidadosa de prós e contras, sem planejamentos e cálculos criteriosos, sem medições e análises coerentes.

Há muita gente dizendo “eu quero, e pronto!”, como se nada mais importasse no mundo, a não ser os objetivos e propósitos acalentados por puro capricho.

Há muita gente que toma uma decisão impensada — “eu quero, e pronto!” — e passa a carregar fardos insuportáveis como resultado dessa escolha.

Há muita gente que bate o martelo — “eu quero, e pronto!” — e, daí para frente, atravessa as tormentas mais devastadoras como desdobramento natural dessa intransigência.

Há muita gente que finca o pé, como jumento empacado — “eu quero, e pronto!” — e, depois, sofre angústias e amarguras decorrentes dessa obstinação sem limites.

Há muita gente padecendo numa relação conjugal arruinada e esfacelada porque um dia decretou: “eu quero, e pronto!

Há muita gente trilhando descaminhos sinuosos e obscuros porque um dia insistiu: “eu quero, e pronto!”.

Há muita gente com o corpo debilitado e as emoções em frangalhos porque um dia teimou: “eu quero, e pronto!”.

Há muita gente que olha para trás e só consegue ver um rastro lamentável de oportunidades perdidas, dias desperdiçados, amizades desfeitas e ressentimentos acumulados porque um dia resolveu: “eu quero, e pronto!”.

Muita gente...

Você está entre eles?

Você também quer e pronto?

Então, esteja preparado para colher os frutos amargos dessa amarga semeadura.

E pronto.

MAIS DO MESMO


Estamos assistindo a gradativa e consistente banalização da mensagem do Evangelho. O conteúdo essencial da pregação de Jesus e seus apóstolos vai sendo substituído, sem pudores nem escrúpulos, por um arremedo insosso e opaco das verdades que, de acordo com a missão original deixada pelo Mestre, deveriam salgar a terra e iluminar o mundo.

Mas não há nenhuma novidade nisso. Desses loquazes mascates que apregoam um evangelho distorcido e maculado, só ouvimos as repetitivas ladainhas de sempre, às vezes maquiadas por discursos eloquentes, às vezes com alguma roupagem de ornamentos coloridos.

Entretanto, o que por trás de paramentos e parafernálias pode parecer inédito, no fundo é apenas mais do mesmo.

O teólogo alemão Dietrich Bonhoeffer, no período da Segunda Guerra Mundial, já lidava com falsificações semelhantes, classificando-as de graça barata, isto é, “a pregação sem arrependimento, o batismo sem a disciplina de uma congregação, a Ceia do Senhor sem confissão dos pecados, a absolvição sem confissão pessoal, a graça sem discipulado, sem a cruz, sem Jesus Cristo vivo”.

Retornando ao século 17, encontramos no Brasil as incisivas admoestações do padre Antonio Vieira a respeito dos que barateiam a mensagem do Evangelho: “os pregadores de hoje não pregam o Evangelho, não pregam as Sagradas Escrituras? Pois não pregam as palavras de Deus? Esse é o mal. Pregam palavras de Deus, mas não pregam a palavra de Deus. As palavras de Deus pregadas no sentido em que Deus as disse, são palavra de Deus, mas pregadas no sentido que nós queremos, não são palavras de Deus, antes podem ser palavra do demônio”.

Era essa também a advertência de Paulo aos cristãos da Galácia, no primeiro século:

Mas ainda que nós ou um anjo dos céus pregue um evangelho diferente daquele que lhes pregamos, que seja amaldiçoado!”.

E o mesmo se dava nos tempos do profeta Jeremias:

Eles estão profetizando mentiras em meu nome. Eu não os enviei, declara o Senhor”.

O que vemos nos dias atuais é, de novo, pura clonagem do Evangelho. Imitação sutil, bem feita, sofisticada, com feições de originalidade, mas que não passa de imitação. Autêntica imitação.

E tudo é tão só mais do mesmo.

É mais do mesmo porque, embora esses enganadores lancem mão, em suas estratégias e artimanhas, de instrumentos tecnológicos moderníssimos, o apelo à superstição, à crendice e ao fanatismo vem de eras medievais.

É mais do mesmo porque, embora a mídia coloque à disposição desses falsificadores os melhores canais de comunicação e publicidade, a manipulação da boa fé e a exploração dos simples continuam sendo recursos úteis em busca de alvos fúteis.

É mais do mesmo porque, embora hoje se multipliquem os megatemplos, os superpúlpitos, os hipercultos, os ultralouvores, os arquimilagreiros e os maxiprodígios, ainda permanece frágil a hermenêutica, insustentável a exegese e incoerente a teologia.

É mais do mesmo porque, embora esses mercenários não coloquem à venda as antigas indulgências para que os pecadores tenham direito a um lugar no céu, costumam atualmente garantir prosperidade financeira, saúde perfeita e vida sem sofrimentos em troca de dízimos, ofertas e doações.

É mais do mesmo porque, embora não comercializem pedaços da cruz, fracos com água do rio Jordão e folhas do Monte das Oliveiras, como se fazia na Idade das Trevas, são negociados em nossos dias, não menos obscuros, outros objetos de devoção, como sabonetes santos, lenços ungidos e chaves benzidas.

É só mais do mesmo. Não há nada de novo. Já vimos esse filme. Triste sambinha de uma nota só. Triste e monótono.


ELE É TUDO DE BOM

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Jesus Cristo é tudo de bom.

Não há nada melhor do que ter e manter comunhão com Ele.

O apóstolo Paulo sabia disso quando escreveu na Carta aos Colossenses: “nele tudo subsiste” (1.17).

Subsistir, em nosso idioma, significa sobreviver, sustentar-se ou permanecer, dependendo do contexto em que a palavra é usada.

Em grego, língua na qual o Novo Testamento foi redigido, a palavra também possui sentidos distintos.

Pode ser entendida, por exemplo, como existir a partir de uma determinada origem. Nesse caso, tudo subsiste nele porque, conforme o testemunho do evangelista João, “todas as coisas foram feitas por intermédio dele; sem ele, nada do que existe teria sido feito” (1.3).

Além disso, subsistir pode significar ser preservado. Ao dizer que tudo subsiste em Jesus Cristo, o apóstolo expressa sua firme confiança na continuidade do propósito divino para a história humana e, em especial, para aqueles que pertencem a Ele. Por isso, chegou a declarar de maneira contundente: “estou convencido de que aquele que começou boa obra em vocês, vai completá-la até o dia de Cristo Jesus” (Filipenses 1.6).

Enfim, uma terceira tradução possível para o termo usado por Paulo é fazer sentido. Ao afirmar que tudo subsiste em Jesus, o texto sagrado revela que tudo só faz sentido nele. O contrário também é válido: nada faz sentido quando fora dele.

Sim, Jesus Cristo é tudo de bom porque é a origem de tudo. É tudo de bom porque a tudo preserva no cumprimento dos seus propósitos. É tudo de bom porque a tudo dá sentido e significado.

Jesus Cristo é tudo de bom em todos os momentos da vida. É tudo de bom quando as portas se abrem ou se fecham. Quando o céu está ensolarado ou nublado. Quando é deserto ou campo verdejante. Quando é montanha ou vale.

Jesus Cristo é tudo de bom porque Ele é bom e é tudo. Ele é o pão. Ele é a água. Ele é a luz. Ele é a porta. Ele é o pastor. Ele é o caminho. Ele é a videira. Ele é a ressurreição. Ele é a verdade. Ele é a vida. Ele é.

Jesus Cristo é tudo de bom quando as redes retornam vazias para a praia, pois Ele renova os ânimos e reaviva as esperanças, insiste para que os pescadores tentem novamente, convence-os a perseverar e a esforçar-se ainda uma vez para que voltem trazendo grande quantidade de peixes.

Jesus Cristo é tudo de bom quando o mar fica enraivecido e ameaça afundar a pequena embarcação, pois sua voz clara e resoluta ordena, de modo inequívoco, a ventos e ondas: “Aquietem-se!” — e o que é fúria e destruição passa a ser bonança e serenidade.

Jesus Cristo é tudo de bom quando há apenas dois pães e cinco peixes para alimentar a multidão faminta, pois com suas mãos parte e reparte a escassa comida ofertada, distribui entre os discípulos os pedaços partilhados para que sejam compartilhados e, após dar graças pela providência divina, provê aos desprovidos e sacia os insaciados.

Jesus Cristo é tudo de bom quando a mãe suplica desesperada, a pecadora chora arrependida, o publicano é discriminado, a viúva sepulta o filho, o cego deseja ver e o mestre atormentado busca respostas.

Jesus Cristo é tudo de bom porque é a revelação do amor de Deus, a Palavra que se fez carne, o Messias prometido, o Sacerdote que oferece o sacrifício, o Cordeiro sacrificado, o Princípio e o Fim, o que era, é e há de ser.

Descanse nele o aflito. Confie nele o ansioso. Refugie-se nele o desabrigado. Espere nele o desesperançado. Pois, nesse mundo onde se vê tudo de mal, Jesus Cristo é tudo de bom.

GRAÇA OU DESGRAÇA

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A escolha é nossa: graça ou desgraça?

Arrependimento é graça. Autojustificação é desgraça.

Confiar na misericórdia de Deus é graça. Querer ser justo com os próprios esforços é desgraça.

Amor é graça. Legalismo é desgraça.

Boas obras por ser salvo é graça. Boas obras para ser salvo é desgraça.

Receber o perdão divino é graça. Carregar o fardo da culpa é desgraça. Estender a mão a quem cai é graça. Julgar aquele que caiu é desgraça.

Dividir e compartilhar é graça. Reter apenas para si é desgraça.

Comunhão é graça. Partidarismo é desgraça.

Alegrar-se com os que se alegram é graça. Inveja ou ciúme é desgraça.

Chorar com os que choram é graça. Ser insensível à dor alheia é desgraça.

Ficar ao lado de quem sofre, ainda que nada seja dito, é graça. Ficar ao lado de quem sofre para julgar, cobrar e condenar é desgraça.

Dar a outra face, deixar a capa junto com a túnica, andar a segunda milha é graça. Desejar vingança, pagar com a mesma moeda, retribuir o mal com o mal é desgraça.

Compreender e perdoar é graça. Ressentir-se e deixar a mágoa criar raízes é desgraça.

Fazer o bem ao que está faminto, sedento, doente, nu e preso, como quem faz a Jesus, é graça. Fazer o bem aos outros simplesmente para vangloriar-se é desgraça.

Aceitar a vocação de todo o povo de Deus, sem castas, hierarquias ou elites religiosas, é graça. Aceitar somente a vocação do clero, do sacerdócio ou do episcopado é desgraça.

Conhecer as Escrituras, mesmo sem muitas informações sobre as Escrituras, é graça. Acumular todas as informações sobre as Escrituras e nada saber das próprias Escrituras é desgraça.

Levar a Bíblia na mente, mesmo sem carregá-la debaixo do braço, é graça. Carregar a Bíblia debaixo do braço sem tê-la na mente é desgraça.

Entender o espírito da letra é graça. Ler apenas o que diz a letra é desgraça.

Servir ao Reino de Deus por amor a Deus é graça. Servir a Deus por qualquer outra razão é desgraça.

Amar a igreja do Senhor por amar ao Senhor da igreja é graça. Amar a igreja do Senhor sem amar o Senhor da igreja é idolatria, é formalidade religiosa, é desgraça.

Adorar com fé e obediência é graça. Adorar apenas para cumprir a liturgia fria e o ritualismo vazio é desgraça.

Orar e esperar a resposta de Deus, sabendo que do Pai Celestial sempre recebemos as melhores respostas, é graça. Orar e impor uma resposta a Deus é desgraça.

Dizimar ou ofertar a Deus com o coração agradecido é graça. Dizimar ou ofertar para barganhar com Deus é desgraça.

Usar os dons espirituais para abençoar os outros é graça. Usar os dons espirituais para autopromoção e autoexibição é desgraça.

Multiplicar os talentos para a edificação dos membros do Corpo de Cristo é graça. Enterrar os talentos para preservar vantagens e ganhos pessoais é desgraça.

Ser ministro de um projeto para a expansão do Reino de Deus é graça. Ser ministro de um projeto para a expansão do próprio reino é desgraça.

Pastorear o rebanho de Deus é graça. Manipular o rebanho de Deus é desgraça.

Pregar a Palavra de Deus é graça. Pregar as próprias palavras como se fossem Palavra de Deus é desgraça.

Chamar Deus de Pai e viver como filho do Pai é graça. Chamar Deus de Pai e viver como filho do Diabo é desgraça.

Chamar Jesus de Senhor e fazer a sua vontade é graça. Chamar Jesus de Senhor e desprezar a sua vontade é desgraça.

Reconhecer o erro e voltar atrás é graça. Querer estar sempre certo e nunca ceder é desgraça.

Quebrantar o coração é graça. Endurecer o coração é desgraça.

Voltar para casa, de coração contrito e quebrantado como o do filho pródigo, é graça. Permanecer na casa, com o coração orgulhoso e soberbo como o do filho mais velho, é desgraça.

Sinceridade com amor é graça. Sinceridade despeitada, espinhosa e cruel é desgraça.

Repreensão com amor é graça. Repreensão enraivecida e destemperada, que não passa de reação do orgulho ferido e da vaidade ofendida, é desgraça.

Indignação com firmeza e mansidão é graça. Indignação com violência e fúria é desgraça.

Renunciar a si mesmo, perder a própria vida e deixar o grão morrer na terra para que dê algum fruto é graça. Encher-se de si mesmo, salvar a própria vida e conservar o grão vivo na terra sem que haja qualquer fruto é desgraça.

Ser uma nova criatura em Cristo é graça. Continuar sendo a mesma criatura sem Cristo é desgraça.

Viver em Cristo, por Ele e para Ele, é graça, é sempre graça, é pura graça. Viver sem Cristo, longe e fora dEle, não é viver, é desgraça pura, não tem graça, não tem nenhuma graça.

O que, afinal, queremos ser?

Agraciados ou desgraçados?